Festival Favela Cria coloca a cultura periférica em foco durante quatro dias do Centro do RJ
Do funk carioca ao rap paulista, o festival contou com grandes shows, obras de artistas de comunidades cariocas, feira literária e empreendedorismo periférico.
Mc Hariel canta no primeiro dia do Festival Favela Cria. Foto por: Silvia Dias
A primeira edição do Festival Favela Cria transformou a Praça Marechal Âncora, localizada no Centro do Rio de Janeiro, no palco da cultura periférica. Durante os dias 30 de outubro a 02 de novembro, o evento reuniu arte, música, moda e gastronomia feita pelas comunidades, de forma totalmente gratuita. De Duquesa a Cash Box, a favela tomou conta da região central carioca.
Idealizado por Raull Santiago, ativista, empreendedor social e comunicador do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, o Festival Favela Cria repercutiu nas redes sociais. Um dos destaques da produção foi a participação de profissionais das próprias comunidades: segundo os organizadores, 99% da equipe era formada por moradores de favelas, que atuaram em áreas como organização, tecnologia e comunicação.
Periferia e música no Palco Complexos
O Palco Complexos, apresentado pela Petrobras, recebeu os principais shows que animaram as quatro noites de festival.
Sexta-feira (30 de outubro)
A abertura dos shows do Favela Cria ficou por conta de NandaTsunami, rapper paulistana que vem ganhando destaque na cena musical com sucessos como “P.I.T.T.Y”, que já ultrapassou 62 milhões de reproduções no Spotify, e “Faço Acontecer”. Como uma verdadeira feiticeira, como se autodenomina, a artista colocou as garotas bonitas para curtir a noite de sexta-feira.
Em seguida, MC Hariel fechou a noite com muitos efeitos visuais. O artista, também conhecido como “Haridade”, levou ao palco sucessos que marcaram uma geração do funk paulista, como “Passei Sorrindo” (2014), seu primeiro grande hit, e “Lei do Retorno” (2017), parceria com MC Don Juan que ultrapassa 280 milhões de visualizações no YouTube.
Lançadas há quase uma década, as músicas marcaram a adolescência de muitos jovens e despertaram nostalgia, fazendo o público cantar junto.

Sábado (31 de outubro)
A festa ficou por conta do ADL, que celebrou os 10 anos do projeto Favela Vive com a participação dos artistas Dexter, Menor do Chapa, Kmila CDD, MC Marechal, Sant e Carol de Niterói. Os convidados levaram ao palco desde o rap raiz até o funk antigo de favela, além de referências aos acontecimentos políticos atuais.
Domingo (1º de novembro)
As gêmeas Tasha & Tracie abriram a programação musical da noite, levando ao palco sucessos como “Tang”, “Desce Licor”, “Salve” e “Amina”, esta última com mais de 40 milhões de reproduções no Spotify. Com mais de 450 milhões de streams, as irmãs trouxeram a força e a potência das quebradas de São Paulo para o solo carioca.
Duquesa encerrou a noite de 1º de novembro com a força do rap baiano, apresentando músicas dos projetos Taurus e Taurus, Vol. 2. A artista é responsável por sucessos como “99 Problemas”, “Única”, “Turma da Duq” e “Purple Rain”.
Com mais de 300 milhões de reproduções somadas entre os dois álbuns no Spotify, a artista mostrou que a periferia da Bahia ocupa os grandes palcos com talento, identidade e a potência da mulher negra, fazendo o público do Festival Favela Cria vibrar.
Segunda-feira (2 de novembro)
O último dia do Festival Favela Cria foi marcado por muito funk e rap. Presente durante os quatro dias do evento, o Baile do Rasta animou o final da tarde com um set no Palco Complexos e participação de Youn.
Em seguida, Ebony, cria de Queimados, na Baixada Fluminense, levou ao palco sua tradicional “sessão gratuita de terapia”, fazendo o público cantar sucessos como “100 Mili”, “Pensamentos Intrusivos” e “Extraordinária”.
O Cash Box encerrou o festival com muito funk das antigas, colocando o público para dançar até o último beat. A programação também contou com a Equipe Pipo e DJ Zullu.

Palco Cria
Batalhas de rima
O Palco Cria foi território de criatividade, improviso e resistência. Durante os quatro dias de festival, recebeu batalhas de rima que deram visibilidade ao talento dos MCs e à força do hip-hop das periferias.
Sob curadoria de Rico Neurótico, rapper e curador de batalhas de freestyle do Rio de Janeiro, os confrontos transformaram as rimas em expressão, identidade e afirmação cultural.
Slam Favela Cria
A poesia falada também ganhou espaço no Palco Cria com o Slam Favela Cria, que reuniu 24 participantes nos dias 30 e 31 de outubro. Sob curadoria de Preta Poética, poeta, produtora cultural e slammaster, a competição valorizou textos autorais e vivências periféricas.
Além das disputas, o Palco Cria reuniu artistas que representam diferentes vertentes do rap, funk e da cultura urbana.
O primeiro dia do evento ficou por conta do MC Rah. O artista paulista levou ao festival sua trajetória ligada ao funk. Já no segundo dia, Spike MC, cria da Baixada Fluminense, subiu ao palco para cantar sobre esperança, resistência e sonhos. Depois, subiu ao palco o DJ TerrorDosBeats. O artista é cofundador do Cacife Clandestino e é responsável por produções que marcaram o rap nacional, com mais de um bilhão de reproduções acumuladas.
No penúltimo dia, o Palco Cria recebeu Cristal, rapper gaúcha que começou sua trajetória nas competições de poesia falada e ganhou projeção nacional com músicas como “Ashley Banks” e “Kawo”. Com rimas que abordam identidade, ancestralidade e resistência, a artista levou ao festival a força do rap produzido fora do eixo Rio–São Paulo.
Empreendedorismo, literatura e tudo o que a periferia produz
Exposição de Artes Plásticas
A exposição de artes plásticas, sob curadoria de Agrade Camíz, reuniu os artistas Thaís Alvarenga, Thaís Iroko, Rafael Cruz, Arcasi e Stefanie Queiroz, valorizando diferentes expressões da arte contemporânea periférica.
Para a artista visual Thaís Iroko, cria do Complexo do Chapadão, “ter iniciativas de favela para pessoas faveladas e feitas por pessoas faveladas é muito importante”. De acordo com ela, valorizar o slam, as batalhas de rima e as artes visuais é mostrar que a favela produz muito além da música, exportando arte, ciência e tecnologia para o mundo.

Exposição de Grafite
O grafite do Festival Favela Cria ficou sob curadoria de André Kajaman, que reuniu seis artistas: Rodrigo Grau, Yaya Ferreira, Alto Dabf, Lu Brasil, Tick e Terra/Isa Luz.
O espaço destacou a força da arte urbana periférica como expressão de identidade, resistência e ocupação cultural, valorizando talentos que transformam os muros das favelas em espaços de criatividade e representatividade.
Batalha dos Barbeiros
O Festival Favela Cria também abriu espaço para a Batalha dos Barbeiros, com disputas nas categorias Desenho e Reflexo Alinhado, além de apresentações de tranças masculinas. A competição destacou a criatividade e a técnica dos profissionais.
Campeão da batalha, o barbeiro conhecido como BN do Corte celebrou a conquista: “Deus é muito bom, só tenho que agradecer a Ele e à galera que esteve na torcida por mim. Deus mais uma vez campeão da batalha dos barbeiros”.
Feira Literária
A Feira Literária do Favela Cria, sob curadoria de Ivan Errante Costa, contou com 20 expositores, sendo 13 autores independentes das periferias.
O espaço promoveu a valorização de narrativas periféricas e fortaleceu o acesso à literatura independente. Para Ivan Errante, o momento foi especial não apenas pela oportunidade de levar os livros ao festival, mas também pelo reconhecimento como curador pela primeira vez. De acordi com ele, “o festival realmente veio para reconhecer a cultura e a periferia”.

Feira Gastronômica
A Feira Gastronômica do Favela Cria contou com 20 expositores, selecionados por meio de um processo de inscrição e avaliação conduzido pela equipe do festival. A participação dos empreendedores foi totalmente gratuita, sem cobrança de taxas para inscrição ou exposição, fortalecendo a visibilidade e as oportunidades de geração de renda para negócios periféricos. Nos bares do evento, as bebidas tinham preços a partir de R$ 5.
Feira de Moda
A Feira de Moda do Favela Cria reuniu 25 expositores de roupas e acessórios, com peças confeccionadas por empreendedores da economia criativa periférica.
Em nota, a marca District Of, expositora do festival, agradeceu à organização do evento:
“Fizemos três dias de participação na Feira de Moda do Festival Favela Cria, trocando ideias, recebendo elogios e incentivos para nossa marca. Fizemos tudo com muito amor e fomos muito bem recebidos pela produção do festival.”
Economia e sustentabilidade
Segundo informações da organização, o festival estimava movimentar a economia com a geração de cerca de 650 empregos diretos e 400 indiretos. Um dos objetivos do Festival Favela Cria é fazer com que parte dos recursos gerados retorne às favelas.
A estudante de Publicidade e Propaganda Andressa Martins destacou a preocupação com a sustentabilidade e o clima de integração do evento:
— Você chega ali e já te entregam um copo, que fica de lembrança. É um certo cuidado também com a sustentabilidade do evento, para você não ficar jogando copo fora toda hora. Pessoas boas, todo mundo ali em prol de só curtir cultura e arte. Muito fod*!
Ao longo dos quatro dias, o Festival Favela Cria mostrou a diversidade da produção cultural das periferias, reunindo diferentes gerações, linguagens artísticas e iniciativas de empreendedorismo em um mesmo espaço. Mais do que levar a cultura das favelas ao Centro do Rio, o evento destacou o protagonismo de quem produz arte, movimenta a economia e constrói novas possibilidades dentro das próprias comunidades.






