Como o poder econômico do Banco Master tentou controlar o noticiário nacional
Revelações trazidas a público a partir de investigações e relatórios da Polícia Federal expõem um capítulo preocupante sobre a relação entre o grande capital financeiro e veículos de imprensa no Brasil.
Créditos da montagem: Divulgação
Mensagens obtidas pelas autoridades mostram que Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, montou uma extensa rede de influência em portais e veículos jornalísticos para controlar narrativas, suavizar críticas e editar diretamente reportagens antes de irem ao ar.
O escândalo atinge desde grandes conglomerados de mídia até portais de notícias de alcance nacional, gerando demissões e levantando debates sobre a independência da informação que chega à população.
Demissão na Globo, o peso das parcerias comerciais e a defesa dos princípios editoriais
Na quinta-feira (15), o Grupo Globo anunciou o desligamento de Frederic Kachar, que ocupava o cargo de diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio da empresa.
A decisão ocorreu após o conhecimento de mensagens privadas trocadas entre o executivo e Daniel Vorcaro entre os anos de 2023 e 2025. Em nota oficial, o Grupo Globo classificou o contato como uma "relação inadequada do executivo com um anunciante" e reafirmou seu compromisso estrito com a ética, a transparência e a independência de seus veículos de imprensa.
A direção interina do setor foi assumida por Luis Henrique Guimarães.
Interferência direta no conteúdo e controle de pautas
As apurações detalham como a influência se desdobrava na prática do dia a dia das redações:
Edição prévia de textos: No portal Metrópoles, mensagens indicam que ao menos 14 reportagens foram enviadas previamente a Vorcaro. Em 11 delas, o ex-banqueiro solicitou alterações — como a retirada de menções a falências, a supressão de nomes de concorrentes e o ajuste no tom sobre diretores do Banco Central —, sendo atendido. As negociações coincidiram com contratos publicitários milionários entre a instituição financeira e o portal.
Acordos e contrapontos entre veículos: Em desdobramentos sobre o caso, reportagens apontaram negociações e acusações mútuas entre veículos como Metrópoles e Folha de S.Paulo a respeito de prazos de publicação e edições de textos. Enquanto o portal acusou o jornal de adiar e suavizar reportagens mediante acertos, a Folha esclareceu que a concessão de tempo atendeu ao direito de resposta da fonte e que as edições posteriores refletiram atualizações fáticas, mantendo sua atuação isenta.
Ajuste de agendas em blogs e sites de economia: No Brazil Journal, diálogos mostram consultas diretas sobre prazos de publicação e ajustes em trechos de reportagens que citavam os negócios e movimentações do grupo.
Rede de influência em capas e portais: As investigações também citaram diálogos e aportes de recursos em outros veículos digitais e revistas, como Brazil Journal, IstoÉ, DCM e Carta Capital, que envolviam desde acordos comerciais de longo prazo, como negociações de patrocínios e adiantamentos de verbas comerciais, até consultas diretas sobre menções ao banco, como encomendas de pautas de interesse do executivo.
O outro lado e as justificativas
Em resposta aos questionamentos levantados pelas reportagens, executivos dos veículos citados negaram que os contratos comerciais tenham comprometido a linha editorial de suas publicações. A direção do portal Metrópoles argumentou que o envio de trechos ou checagens prévias com fontes faz parte do processo de apuração com figuras públicas e empresariais. A defesa e os representantes dos demais veículos sustentam que as parcerias seguiam critérios estritamente comerciais.












