De Guadalupe para o mundo: irmãs transformam talento e dedicação em sonho olímpico nos Saltos Ornamentais
Entre ônibus lotados, almoços dentro do carro e uma rotina intensa de treinos, Jully e Ludmila Lacerda carregam o nome de Guadalupe e sonham em representar o Brasil nos Jogos Olímpicos.
Jully e Ludmila Lacerda representam Guadalupe e sonham em defender o Brasil nos Jogos Olímpicos. Foto: Ricardo Bufolin/ECP
Quando o despertador toca pela manhã, Jully e Ludmila Lacerda sabem que o dia será longo. A rotina começa na escola, passa por um almoço improvisado e segue rumo aos treinos, que ocupam praticamente toda a tarde. O caminho até a piscina é cansativo, mas o destino é sempre o mesmo: um sonho que parece cada vez mais próximo.
Moradoras de Guadalupe, na Zona Norte do Rio, as duas irmãs vêm se destacando nos Saltos Ornamentais e acumulando resultados que chamam a atenção de treinadores e especialistas da modalidade. Mais do que medalhas, porém, elas carregam uma história de perseverança, apoio familiar e amor pelo esporte.
Um talento descoberto ainda na infância

Foto: Acervo pessoal da treinadora Ana Paula Shalders
Segundo a mãe, Tatiane, os sinais de que as meninas tinham aptidão para o esporte apareceram muito cedo.
Tudo começou com Ludmila, que passava horas assistindo aos filmes da Barbie Bailarina e reproduzindo os movimentos em casa.
“Ela conseguia ficar na pontinha do pé, gostava de se apresentar, vestir fantasias e o próprio corpo dela já era muito atlético. Quando colocamos no balé, a professora ficou surpresa com a postura que ela tinha sem nunca ter feito aula”, relembra.
Pouco tempo depois, uma cena em uma praça chamou ainda mais atenção. Ludmila atravessava repetidamente uma escada horizontal sem demonstrar qualquer sinal de cansaço, despertando comentários de quem assistia.
A família decidiu investir na ginástica, enquanto Jully, sempre acompanhando a irmã, começou a construir sua própria relação com o esporte.
Mais tarde, um teste realizado no Parque Aquático Maria Lenk mudaria a história das duas.
“Ali tinha piscina e acrobacias ao mesmo tempo. Foi amor à primeira vista”, conta Tatiane.
Para Jully, o encanto aconteceu no instante em que conheceu o local.
“Quando fui fazer o teste no Maria Lenk e vi aquela piscina linda, me apaixonei.”
Uma rotina de gente grande

Foto: Ricardo Bufolin/ECP
Por trás das conquistas existe uma rotina intensa.
As duas estudam pela manhã e deixam a escola ao meio-dia. Como o treino começa às 13h30, não há tempo para voltar para casa.
O almoço acontece dentro do carro antes do deslocamento para o Centro Olímpico. Depois, enfrentam o transporte público até chegar ao treinamento.
“Não existe descanso para almoço. Muitas vezes elas enfrentam cerca de 40 minutos de ônibus, em pé, antes mesmo de começar o treino”, relata a mãe.
Quando a atividade termina, o desgaste continua.
“O retorno é ainda mais cansativo. Ônibus lotado, dores dos exercícios… Muitas vezes elas gostariam de mais conforto, mas nem sempre conseguimos oferecer.”
Tatiane conta que um dos maiores desafios é manter o entusiasmo das filhas diante de uma rotina tão exigente.
“São adolescentes em desenvolvimento sendo preparadas para um futuro brilhante. O maior desafio é saber responder aos questionamentos delas e manter o mesmo desejo para continuarem.”
Medalhas conquistadas com muito trabalho

Foto: Instagram @ludmilaejullylacerda
Os resultados mostram que o esforço tem valido a pena.
No Campeonato Brasileiro disputado entre os dias 29 de abril e 3 de maio, em Brasília, Jully conquistou o ouro em todas as provas que disputou na categoria C Infantil (12 e 13 anos): trampolim de 1 metro, trampolim de 3 metros, plataforma e sincronizado de 1 metro, recebendo também o Troféu de Destaque da categoria.
Ludmila também brilhou na categoria B Juvenil (14 e 15 anos), vencendo as provas de trampolim de 1 metro, trampolim de 3 metros, plataforma e sincronizado de plataforma, conquistando igualmente o Troféu de Destaque.

Para a treinadora Ana Paula Shalders, o sucesso das atletas não é fruto do acaso.
“O que mais chama atenção nas meninas é o talento, a dedicação e a disciplina que elas demonstram desde muito jovens.”
Sonhos que ultrapassam as bordas da piscina

Foto: Ricardo Bufolin/ECP
Apesar das conquistas, o maior objetivo ainda está no futuro.
“Meu sonho é ir para as Olimpíadas”, resume uma das irmãs.
Jully também sonha alto.
“O meu maior desejo é conseguir acertar os saltos que treinei com perfeição, ser reconhecida pelo que executei e participar das Olimpíadas, saindo vitoriosa.”
Segundo Ana Paula, esse objetivo é perfeitamente possível.
“Tenho plena convicção de que elas têm tudo para chegar às Olimpíadas. Esse é o nosso grande objetivo, mas seguimos passo a passo, respeitando o tempo e a idade para preservar a saúde delas como atletas.”
Antes disso, o planejamento inclui campeonatos mundiais, sul-americanos, pan-americanos e etapas da Copa do Mundo.
A treinadora revela ainda que Ludmila vem sendo preparada para disputar provas sincronizadas ao lado da atleta olímpica Ingrid Oliveira, uma das principais referências brasileiras na modalidade.
Um esporte que ainda precisa de mais oportunidades

Foto: Acervo pessoal da treinadora Ana Paula Shalders
Para Ana Paula, ampliar o acesso aos Saltos Ornamentais ainda é um grande desafio no Brasil.
Segundo ela, além da familiaridade com o ambiente aquático, a modalidade exige estruturas específicas, como plataformas, trampolins, piscinas profundas e espaços apropriados para treinamento no seco.
“Para popularizar a modalidade, é fundamental investimento público e privado, com uma rede de apoio que garanta desde a base até o alto rendimento.”
O orgulho de representar Guadalupe

Para Tatiane, ver as filhas alcançando resultados tão expressivos tem um significado que vai além do esporte.
“Sinto que é algo sobrenatural. Não fomos nós que colocamos esse potencial dentro delas.”
A ligação com Guadalupe atravessa gerações da família.
“Meu bisavô veio da Itália, se casou com minha bisavó brasileira e comprou um terreno em Guadalupe. Somos nascidos e criados aqui, na mesma rua, no mesmo terreno. Sempre conto para elas sobre nossas raízes e nossa história.”
Ela acredita que as filhas também ajudam a mostrar uma imagem diferente do bairro.
“Guadalupe é um lugar sobre o qual muitas vezes ouvimos histórias ruins, mas também possui grandes vitórias. Elas são duas improváveis que tiveram suas vidas transformadas pelo esporte. Foram inúmeras dificuldades, mas nada impossibilitou o avanço, nem mesmo o local onde moramos.”
Enquanto seguem conciliando escola, treinos e uma rotina exaustiva, Jully e Ludmila continuam escrevendo uma história que já inspira outras crianças da região. Em cada salto, carregam consigo não apenas o sonho olímpico, mas também o orgulho de representar Guadalupe e mostrar que grandes talentos podem nascer em qualquer lugar.












