Museu do Amanhã recebe evento que fortalece redes de jornalismo local e tem lançamento de manual de redação antirracista
Encontro reuniu comunicadores, jornalistas e lideranças de diferentes territórios do país para discutir o fortalecimento da comunicação comunitária e apresentou iniciativas voltadas à construção de um jornalismo mais democrático e antirracista
Apresentação dos representantes dos 10 veículos selecionados para o Programa Locus. Crédito: Albert Andrade/Fundação Itaú
O Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, foi palco em 28 de setembro, do evento "Rede de Narrativas e Territórios", promovido pela Fundação Itaú. O encontro reuniu comunicadores populares, jornalistas, pesquisadores e lideranças comunitárias de diferentes territórios do Brasil para debater a democratização da informação, caminhos para fortalecer os meios de comunicação periféricos e o papel da memória nos territórios populares.
A programação do evento contou com o lançamento de iniciativas como o Programa Locus, da Fundação Itaú, e o Manual de Redação produzido pela Agência Alma Preta, além de mesas de debate e da apresentação dos projetos contemplados pela iniciativa.
Territórios no centro do debate
As mesas de discussão foram um dos destaques do dia. Entre os temas abordados estavam os desafios e as potências da cobertura local, além da forma como a comunicação feita por e para as periferias tensiona as narrativas hegemônicas, ou seja, histórias e perspectivas historicamente dominantes.
A importância de criar pontes entre diferentes iniciativas de comunicação comunitária em todo o país também foi um dos tópicos debatidos. Renê Silva, fundador do veículo Voz das Comunidades, falou sobre a importância do jornalismo local para os territórios marginalizados:
– As iniciativas de comunicação comunitária são muito importantes para os nossos territórios. Elas permitem que a gente possa continuar reivindicando melhorias para dentro das favelas. E o nosso principal objetivo, enquanto veículo, é manter a gente de pé.
Veículos contemplados pelo Programa Locus
Como parte da programação do encontro Rede de Narrativas e Territórios, foram apresentados os dez veículos selecionados pelo Programa Locus, diversos em suas abordagens midiáticas, que vão de jornalismo comunitário a artes visuais.
Como ponto em comum, os veículos apresentados mostraram como o ecossistema de mídia local tem sido essencial no combate à desinformação e na apuração de pautas ligadas a transporte, segurança, cultura e direitos humanos, abrangendo desde populações periféricas das metrópoles até comunidades indígenas de diferentes territórios.
A seguir, a relação dos veículos selecionados pelo projeto:
● A Lente (Mato Grosso)
Organização de jornalismo socioambiental e fotodocumentarismo criada em Cuiabá. Produz narrativas sobre a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal e dá visibilidade a territórios e populações sub-representadas.
● Coletivo Força Tururu (Pernambuco)
Criado em Paulista, atua com comunicação popular, formação e produção de narrativas para fortalecer as vozes e perspectivas da comunidade.
● Coletivo Maré Cheia (Pará)
Atua na Amazônia com comunicação popular, formação e educomunicação, desenvolvendo projetos com organizações, movimentos e iniciativas sociais e ambientais.
● Sargento Perifa (Pernambuco)
Veículo independente do Recife que trabalha com comunicação, educação popular e dados territoriais, produzindo informação de morador para morador.
● Entre Becos (Bahia)
Grupo de profissionais de bairros populares de Salvador que produz jornalismo a partir do território, com foco em direitos humanos, cidadania e diversidade.
● Mangue Jornalismo (Sergipe)
Organização de comunicadores que produz jornalismo independente e investigativo em Sergipe, com atuação pautada pelos direitos humanos.
● Puxirum do Bem Viver (Amazonas)
Coletivo de jovens ativistas que conecta comunicação, emergência climática e soberania alimentar, atuando junto a comunidades indígenas.
● Redes do Beberibe (Pernambuco)
Coletivo de mídia que atua nas comunidades da bacia do Rio Beberibe com produção de informação, dados, formação e mobilização territorial.
● Rede Katahirine (Nacional)
Rede de mulheres indígenas que fortalece o protagonismo no cinema e no audiovisual, valorizando suas narrativas, seus territórios e suas diferentes formas de produzir imagens.
● Reocupa (Maranhão)
Coletivo de São Luís que conecta cultura, educação, formação política e justiça climática, com ações voltadas para o direito à cidade e à valorização dos territórios.
Lançamento do dossiê "O futuro é local"
O evento também apresentou ao público o novo dossiê "O futuro é local", produzido pelo Fala Roça e pela Agência Mural, em parceria com a Fundação Itaú. A publicação reúne reflexões, propostas e aprendizados construídos ao longo da 3ª Conferência de Jornalismo das Favelas e Periferias.
Manual da Alma Preta: Guia para uma prática antirracista
Um dos momentos mais aguardados da programação foi o lançamento do Manual de Redação da Agência Alma Preta, em parceria com a Fundação Itaú. O documento busca contribuir com jornalistas e profissionais da comunicação que desejam praticar um jornalismo comprometido com o antirracismo.
O manual surge como um instrumento prático e conceitual para redações de todo o país, oferecendo diretrizes para uma cobertura ética, antirracista e atenta às especificidades das populações negras e periféricas. “O manual reúne técnica, ética e política para pensarmos como fazer um jornalismo mais democrático, comprometido com o direito à informação e com os direitos humanos”, afirma Pedro Borges, diretor e cofundador da Agência Alma Preta.
O Guia está disponível para compra no site da Editora Fósforo.
A voz da periferia no futuro da comunicação
A realização do encontro Rede de Narrativas e Territórios no Museu do Amanhã simbolizou também a ocupação de espaços institucionais centrais por vozes que historicamente foram e são marginalizadas pela imprensa tradicional. Para veículos de mídia comunitária — como o Voz de Guadalupe —, o evento reafirma a importância do financiamento contínuo, da articulação em rede e do reconhecimento profissional da comunicação popular.
A iniciativa conectou atores do jornalismo de favelas, periferias, quilombos e comunidades indígenas de diferentes regiões do Brasil. A oportunidade permitiu pensar, em conjunto, o que cada território quer oferecer à sociedade, desde a defesa do direito a espaços plurais de produção de ideias e soluções até a construção de respostas para populações que vivem em regiões onde a atuação do poder público é insuficiente para garantir condições básicas de qualidade de vida.
As imagens do encontro e os bastidores das discussões estão disponíveis nas redes oficiais da @fundacaoitau e dos veículos participantes.












