MC Merly: a voz do Funk que canta a realidade do Chapadão
Cria da Jaqueira, no Complexo do Chapadão, MC Merly relembra como o improviso na esquina virou carreira e fala sobre a responsabilidade de cantar a vivência da favela.
MC Merly no seu show em Fortaleza. Reprodução: Biel Filmes
O Complexo do Chapadão não é só o lugar de onde MC Merly veio. É o que ele canta. Foi nas esquinas da comunidade, entre os amigos de infância, que o artista descobriu o dom para a rima. Hoje, ele leva essa vivência para as letras, misturando funk, trap e rap consciente. Em conversa exclusiva com o Voz de Guadalupe, o MC relembrou o início da trajetória, contou a história por trás do nome artístico e deixou um recado para quem está começando.
Primeiros passos: da esquina da Jaqueira à música
A história de MC Merly com o funk começou entre 2008 e 2009, ainda na época da escola. Nas rodas com os amigos, a cobrança era sempre a mesma: "Geral começava a bater palma e falava: 'vai, WL, manda aí'", relembra.
O ponto de encontro era a Rua Moraes Pinheiro, na Jaqueira, onde ele foi criado, no Complexo do Chapadão. Em casa, ele começou a refletir e escreveu a primeira música. Foi também nessa época que passou a acompanhar e admirar outros MCs.
– A gente parava na esquina, a rapaziada ficava pedindo pra eu mandar a rima, e foi aí que eu vi que tinha o dom do improviso e de escrever também.
Mas o sinal de que havia ali um artista veio de um lugar inusitado: o banheiro. MC Merly contou que toda vez que ia tomar banho, começava a cantar. Apesar da reclamação da sua mãe e dos seus irmãos com o barulho, ele continuou praticando, até perceber que tinha talento.
De WL do Final a MC Merly
Antes de ser MC Merly, o artista era conhecido como MC WL do Final, nome que homenageia o Final Feliz, localidade do Complexo do Chapadão, na região da Pavuna, perto de Ricardo de Albuquerque e Guadalupe. A mudança veio a partir da sugestão de um empresário e apesar da insegurança, o MC aceitou a proposta.
– Ele me falou que esse nome ia fazer alguns lugares fecharem as portas pra mim. Disse que me via como outros MCs grandes, que eu tinha potencial pra chegar longe, e sugeriu Merly, que é o meu nome verdadeiro. Fiquei na dúvida e pensei: 'o que eu vou fazer agora?' e abracei a troca. Ficou mais profissional e mais verdadeiro pras pessoas me identificarem como artista. Mas sempre serei o WL do Final.

Chapadão: muito além da guerra
Para MC Merly, crescer no território do Complexo do Chapadão é motivo de orgulho, e ele faz questão de combater a imagem que muita gente tem da comunidade.
— Muitas pessoas veem o Chapadão como cenário de guerra, mas o Chapadão não tem só guerra. Tem muita coisa boa: projetos sociais, futebol, arte marcial, ator, atriz, MC também, como eu.
O artista tem até um sonho para o lugar onde cresceu: "Espero que o Chapadão vire um ponto turístico, assim como a Rocinha e o Vidigal.”
Representar a comunidade
Quando sobe ao palco, MC Merly sente que carrega a favela junto. E isso aparece no repertório. "Eu não canto só putaria. Eu também canto a realidade da comunidade. Falo do que acontece no dia a dia, canto trap, consciente, a vivência."
Ele lembra que muita gente passou a acompanhá-lo recentemente, sem conhecer o caminho percorrido até aqui, e é justamente essa história que as letras contam.

Referências e música
Entre as referências, o artista cita um nome de dentro e outro de fora do funk: MC Tikão, artista funkeiro, e Filipe Ret, cantor de trap.
Quando o assunto é a faixa mais marcante da carreira, a resposta vem sem hesitar: "Eu Consegui".
– É uma música com que eu me identifico muito e foi uma das primeiras em que contei a minha história. Ela fala da minha trajetória, fala do meu pai, fala da minha mãe.Se tivesse que voltar ao início, eu faria tudo de novo.
Recado para a nova geração
Para os jovens que estão começando, o recado é de coragem.
– Se tiver que avançar, vai pra cima, vai sem medo. O bagulho é não ter medo, é cair pra dentro. Se tiver que ir sozinho, vai, o sonho é teu. Nunca desistam do sonho de vocês, que um dia vocês vão chegar lá, assim como eu. Espero ser inspiração para toda a rapaziada do Chapadão.
Da esquina da Jaqueira para os palcos, MC Merly segue transformando a vivência da favela entre rimas e batidas, com a mesma verdade de quando ainda era o WL do Final.












