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De Costa Barros para as páginas de um livro: Ana Beatriz Barbosa estreia na literatura

Moradora da Zona Norte do Rio, autora transforma memórias, território e as marcas da violência em “Buraco do Mundo”, conto publicado na coletânea De Carne e Osso.

Atualizado em 01/09/2026 às 13:09, por Mariana.

Livro, Costa Barros, Ana

Ana autografando seu primeiro livro.

Há histórias que nascem de um lugar confortável. Outras surgem justamente quando dormir parece impossível. Foi durante as noites de insônia da pandemia, em 2020, que Ana Beatriz Barbosa escreveu “Buraco do Mundo”, conto que hoje marca sua estreia em uma publicação literária e integra a coletânea De Carne e Osso, lançada pela Imã Editorial. 

Moradora de Costa Barros, na Zona Norte do Rio de Janeiro, Ana encontrou na escrita uma maneira de elaborar sentimentos que, segundo ela, não sabia exatamente onde colocar. O texto nasceu de uma experiência íntima, mas também profundamente atravessada pelo território e pela realidade vivida por tantas famílias do Rio. 

“Buraco do Mundo” foi escrito no período mais duro da pandemia, quando o isolamento se somava à continuidade da violência nas comunidades. Entre os acontecimentos que atravessaram a autora naquele momento estava a morte de João Pedro, adolescente de 14 anos assassinado durante uma operação policial em São Gonçalo, em 2020. 
 
Mais do que registrar uma realidade, Ana escolheu transformá-la em ficção, embora reconheça que, em determinados lugares, a distância entre ficção e realidade seja quase inexistente. “É um texto muito íntimo, é um texto que surgiu a partir das insônias da vida e também da dor de ver essas coisas acontecendo e não saber o que fazer com todo esse sentimento que fica.” É justamente nessa fronteira entre o vivido e o imaginado que o conto se constrói. Ana escreve a partir de um território que conhece, de acontecimentos que a atravessaram e de uma necessidade de transformar em palavras aquilo que, muitas vezes, permanece sem nome.

Uma mesa, uma família e o vazio deixado pela violência 

Entre as imagens que atravessam “Buraco do Mundo”, uma das mais significativas para Ana é a mesa de jantar. O objeto, aparentemente cotidiano, ganha outra dimensão dentro da narrativa. Foi ao redor da mesa que ela cresceu vendo a família reunida. É também a partir dessa memória afetiva que a autora constrói uma história marcada pela ausência — pelo lugar que permanece quando alguém já não está. A mesa, então, deixa de ser apenas um espaço de convivência e passa a representar aquilo que sobra depois da perda.

 Essa escolha aproxima o conto de uma dimensão ainda mais humana: antes de falar sobre violência de forma abstrata, Ana fala sobre pessoas, famílias e sobre a dor concreta provocada pela ausência. “Peço que leiam com carinho o ‘Buraco do Mundo’”, disse Ana durante o lançamento. “Peço que possam refletir também sobre a dor dessa mãe.” 

Do texto escrito em 2020 ao livro 

Por anos, “Buraco do Mundo” permaneceu como um texto criado em meio às inquietações da pandemia. Agora, ele ganha uma nova vida ao lado de outros trabalhos na coletânea De Carne e Osso. Organizado por Rafael Farah e Rodrigo Batista, o livro reúne textos de diferentes autores e tem como título uma expressão retirada do texto de Carolina Amaral, também participante da obra. Entre os nomes que integram a publicação estão Ana Beatriz Barbosa, André Senna, Angélica Conceição, Bruno Brönstrup, Carolina Amaral, Felipe Barros, Gabriela Perigo, Helena Machado, Júlia Barandier, Lenio Carneiro Jr., Lucas Muniz e Rafael Farah. 

Para Ana, fazer parte desse grupo representa mais do que colocar seu nome em uma capa. É a concretização de um texto que nasceu em um período de incertezas e que, anos depois, encontra espaço para ser lido por outras pessoas. — Ter um texto meu publicado ainda parece ser um sonho. Nos últimos anos, acho que tentar sobreviver se tornou o ato que mais consome a minha energia, e isso acabou diminuindo prioridade do ato de escrever na minha vida. Mas vejo que o tempo vai ajeitando a vida, como ouvi da mestre Conceição Evaristo em uma aula magna na PUC-Rio este ano. E um resultado isso foi esse lançamento, que me permitiu olhar para todos os lugares daquele ambiente e ver pessoas que eu amo de todos os territórios possíveis estando ali presente e celebrando comigo. 

Quando o território também escreve 

A estreia de Ana na literatura acontece a partir de um lugar que costuma aparecer nas notícias principalmente associado à violência, mas que, para quem vive nele, é também feito de memória, família, encontros, sonhos e criação. Ao colocar Costa Barros dentro de sua trajetória literária, Ana amplia as possibilidades de representação desse território. Seu conto nasce de uma realidade marcada por conflitos, mas não se limita a reproduzi-la. Há memória, afeto, imaginação e, sobretudo, uma tentativa de compreender o que a violência deixa para trás. 

A literatura aparece, nesse processo, como uma forma de elaborar a realidade sem necessariamente oferecer respostas prontas. “Buraco do Mundo” começou nas insônias de uma jovem durante a pandemia. Agora, chega às mãos de leitores como registro de uma experiência que é particular, mas que também dialoga com dores coletivas.

 A história de Ana, portanto, não termina na publicação do conto. Pelo contrário. De Carne e Osso marca o primeiro registro de uma escrita que encontrou espaço para sair do papel e alcançar novos leitores — levando consigo as marcas de seu território, suas memórias e as perguntas que deram origem à história. De Costa Barros para as páginas de uma coletânea literária, Ana Beatriz Barbosa começa a construir, palavra por palavra, seu caminho como escritora.