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Atriz Karina Ferrari defende mais oportunidades culturais no bairro de Guadalupe

Aos 27 anos, artista relembra trajetória iniciada na infância, o sucesso em “Caminho das Índias” e defende mais investimentos em cultura na Zona Norte do Rio.

Atualizado em 15/10/2026 às 16:10, por Rafael Santos.

Fotos: Divulgação/Instagram

Antes mesmo de compreender os desafios de uma carreira artística, Karina Ferrari já sabia o que queria. Aos quatro anos de idade, começou a fazer dança e teatro e encontrou na arte um caminho que seguiria ao longo da vida. Hoje em dia, a artista reúne experiências na televisão, na música, na dança e na internet, além de manter uma ligação profunda com Guadalupe, bairro onde mora e que considera parte fundamental de sua formação.

Karina alcançou projeção nacional ainda criança, em 2009, ao interpretar Anusha Ananda na novela “Caminho das Índias”, da TV Globo. A participação na produção, que conquistou grande audiência na época, colocou a atriz em evidência e marcou uma fase importante de sua trajetória profissional.

Anos depois, a menina que conquistou o público na televisão continua ligada à arte e encontrou novas formas de se comunicar. Sua carreira passou por diferentes áreas e hoje também inclui trabalhos na internet, como influenciadora e streamer.

Mas, antes da televisão e da exposição nacional, havia uma criança de Guadalupe que já encontrava na dança e no teatro uma forma de expressão.

Uma artista que começou aos quatro anos

A relação com a arte começou muito cedo. Karina conta que, ainda pequena, já demonstrava facilidade para interpretar, memorizar textos e dançar ao lado de adultos. O contato precoce com essas atividades fez com que a carreira artística deixasse de ser apenas uma brincadeira de infância e passasse a ocupar um espaço central em sua vida.

“Eu sempre fui para o lado artístico. Comecei a fazer dança e teatro com quatro anos de idade”, relembra.

A história de Karina também se mistura com a trajetória cultural de Guadalupe. Filha de músico, ela cresceu acompanhando de perto o ambiente artístico do bairro. O pai fazia parte do grupo Cheiro Verde, conhecido na região, e foi uma de suas principais referências.

Foi também em Guadalupe que a artista encontrou um dos espaços mais importantes de sua formação: a Lona Cultural. Ali, fez aulas de dança e participou de apresentações teatrais, tendo contato desde cedo com atividades culturais próximas de casa.

Para Karina, a existência de espaços como a Lona pode fazer diferença na vida de crianças que desejam desenvolver habilidades artísticas, principalmente quando suas famílias não possuem recursos financeiros para custear cursos e deslocamentos.
 

Falta de dinheiro e distância foram obstáculos

O caminho até conquistar espaço no meio artístico não foi simples. Karina precisou lidar desde cedo com duas dificuldades que, segundo ela, ainda afastam muitos jovens da cultura: a falta de dinheiro e a distância dos locais onde estão concentradas as oportunidades.

Para quem mora em bairros da Zona Norte, o deslocamento pode representar não apenas horas de viagem, mas também um custo que muitas famílias não conseguem assumir.

Karina viveu essa realidade. Sem recursos para investir na própria formação, encontrou nas bolsas de estudo uma alternativa para continuar estudando dança e teatro. A busca por essas oportunidades começou ainda na infância.

A experiência fez com que ela passasse a defender mudanças na distribuição dos equipamentos e das atividades culturais pela cidade. Para a artista, crianças e adolescentes não deveriam precisar atravessar grandes distâncias para ter acesso a uma formação de qualidade.

“É muito importante ter essas oportunidades dentro do próprio bairro. Assim, as crianças conseguem participar das atividades culturais, descobrir seus talentos e perceber que também podem realizar o sonho de trabalhar com arte”, destaca.

Falta de acesso ainda limita novos talentos

Para Karina, o problema vai além da falta de cursos. Ela também chama atenção para a importância de reconhecer que crianças e adolescentes possuem habilidades e interesses diferentes.

A artista lembra que nunca teve facilidade com algumas disciplinas escolares, mas encontrava nas artes um espaço de expressão e desenvolvimento. Durante muito tempo, isso fez com que tivesse a impressão de ser uma aluna ruim, quando, na verdade, estava tentando se encaixar em uma área que não correspondia às suas principais habilidades.

A experiência se transformou em uma das principais bandeiras da artista: incentivar crianças e adolescentes a descobrirem suas próprias aptidões.

Karina defende a ampliação do acesso a atividades como teatro, dança e música, inclusive para quem não pretende seguir carreira profissional nessas áreas. Em sua avaliação, essas experiências também podem oferecer oportunidades de expressão, convivência e desenvolvimento pessoal.

“Nem toda criança e adolescente quer ser médico, advogado ou dentista. Existe a arte, existe a atuação, existe a música, existe a dança”, afirma.

Ela também defende uma maior presença de espaços culturais nos bairros da Zona Norte, principalmente em regiões onde muitas famílias enfrentam dificuldades financeiras.

Para a artista, há talentos nas comunidades que precisam de oportunidades para desenvolver suas habilidades e apresentar seu trabalho.

“Esses lugares têm ouro. É só investir e acender essa chama”, resume.

Guadalupe também precisa reconhecer o que já tem

A cobrança por mais investimentos não impede Karina de reconhecer a importância dos espaços que já existem no bairro. Para ela, a população também precisa ocupar e valorizar essas estruturas.

A Lona Cultural, o cinema local e os projetos sociais são citados pela artista como exemplos de iniciativas que podem contribuir para a formação cultural e o entretenimento dos moradores.

Karina acredita que cobrar melhorias e, ao mesmo tempo, valorizar o que já existe são movimentos que podem caminhar juntos.

“Vamos usar o que nós temos e trazer isso para o nosso favor”, afirma.

A artista também defende que os moradores participem mais das discussões sobre o futuro de Guadalupe. Para ela, a mobilização da população pode ser importante na reivindicação de melhorias e na ampliação das oportunidades disponíveis no bairro.

Da televisão à internet

Depois da experiência na televisão, Karina continuou construindo sua trajetória artística e passou a explorar novas possibilidades na internet. Atualmente, também trabalha como influenciadora e streamer, utilizando principalmente o TikTok para compartilhar conteúdos, realizar transmissões e se aproximar do público.

Entre os próximos projetos está a retomada do canal no YouTube. A proposta é revisitar momentos de sua trajetória, contar curiosidades sobre os trabalhos que realizou e compartilhar histórias dos períodos em que esteve envolvida com novelas e outros projetos.

A ideia é transformar suas próprias experiências em conteúdo e mostrar ao público os bastidores de uma caminhada iniciada ainda na infância.

Mais do que relembrar o passado, Karina pretende usar sua história para mostrar a outros moradores de Guadalupe que o lugar onde uma pessoa nasce ou vive não precisa determinar até onde ela pode chegar.
 

Uma artista que escolheu ficar

Apesar dos desafios que identifica no bairro, Karina não fala de Guadalupe com vontade de partir. Pelo contrário: afirma que deseja continuar vendo o local crescer e acredita que quem vive na região merece mais oportunidades, segurança e qualidade de vida.

Essa ligação também é alimentada pelo carinho que recebe dos moradores. Reconhecida por pessoas que acompanham sua trajetória desde a infância, ela ainda escuta pelas ruas histórias de quem assistiu aos seus trabalhos quando tinha apenas nove anos.

Esse reconhecimento criou uma relação afetiva que, segundo Karina, fortaleceu sua vontade de ver Guadalupe prosperar.

“Eu quero o melhor para o meu bairro, porque sei que as pessoas que vivem aqui são incríveis”, afirma.

Ao Voz de Guadalupe, a artista também deixa um agradecimento aos moradores que acompanham sua caminhada há tantos anos. Para ela, o carinho recebido no bairro é uma das razões para continuar olhando para Guadalupe não apenas como o lugar onde mora, mas como parte de sua própria história.

“Tudo o que vocês me entregaram foi carinho e afeto. Eu só desejo o melhor para todos vocês”, declara.

A trajetória de Karina Ferrari também traz à tona uma discussão sobre o acesso à cultura em Guadalupe e em outros bairros da Zona Norte. A artista defende que a ampliação dos investimentos, a valorização dos espaços existentes e a criação de novas oportunidades podem ajudar mais moradores a desenvolver suas habilidades. Para ela, o acesso à cultura deve fazer parte da realidade do bairro, permitindo que crianças, adolescentes e adultos encontrem caminhos para explorar seus interesses e talentos sem precisar sair de suas comunidades.